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sábado, 28 de dezembro de 2013

Entrando de férias – saindo da matrix

                                                 

Hoje cedo convoquei meu pai para bater perna no centro da cidade (Natal-RN). Vamos!- concordou.  De busão – expliquei – e certamente demora a passar por aqui. Ele continuou aceitando. Fomos! Logo na parada, um senhor bêbado fazia dos assentos a sua própria cama. “Como uma pessoa chega a esse ponto? – pensei”.  Do outro lado, um banquinho onde nos acomodamos. “Se esse ônibus demorar podemos pegar um táxi” – meu pai concordou, mas em menos de 10 minutos o 35 chegou. Era umas 8h40. Sentamos um ao lado do outro. O ônibus deu a partida. Meu pai reclamou da quentura. Realmente. A brisa quente, digo, infernal, não deixava mentir: o verão havia começado não agora, há mil séculos, pois essa quentura é a mesma de sempre, apenas estava um pouco pior!

Estou de férias! - disse "sem fé"! E nada como começar a curti-la batendo perna na própria cidade e por locais inusitados para quem está de férias: sebos e comércios populares! Passamos pelo Beco da Lama, compramos raridades numa lojinha escondida de literatura de cordel, numa outra loja só de Cd’s, em outra somente de músicas de boleros e filmes de faroeste, além de tomarmos uma Grapette num mercadinho cujo vendedor estava puto com o governo. “Esse governo acabou com o otimismo do povo. Não voto mais em ninguém!”, desabafou.

Em cada loja, em cada canto, muitas figuras e histórias de vida. Ao final, uma reflexão: não é preciso ir longe para curtir, não é preciso pagar caro para sentir-se bem. “Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir!”, disse Fernando Pessoa. Quem somos nós para discordar? Além do mais, lembrei-me: moro onde as pessoas vêm de longe passar as férias. Há muito o que se ver e rever gastando pouco na minha atual cidade, estado, país. Claro que há destinos longínquos e com passagens mais altas que os R$2,20 (inteira) do busão (risos) , também interessantes, mas começar pela singela Natal-RN e suas incríveis possibilidades é mais que perfeito!

Espero que não entendam que sou contra gastar mais pelo glamour (A-do-ro!), mas jamais viveria somente disso porque o maior luxo da vida não se compra: amor, saúde, alegria e liberdade para fugir da matrix, indispensáveis para realmente curtir a vida e as férias seja onde for, em OFF, o maior tempo possível! Estou feita! Hasta la vista! ;)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Today is a good day to die





Não acreditava no que estava ouvindo: “Today is a good day to die!” Primeiramente, fiquei boquiaberta; em seguida, ri descontroladamente. WTF. Por que esse cara tá falando isso? O motivo era o contrário do que imaginava: porque ele está numa batalha de vida ou morte, e por enquanto que está vivo, mais do que pronto para o der e vier... Meditei sobre isso por certo tempo e pelo fato de um joguinho “nerd” ter realmente algo a ser ensinado. Daquele momento em diante, penso que todos os dias são mesmo bons para morrer. É o despertar da consciência de que o deadline não se restringe somente às nossas atividades de trabalho... Então hoje acordei e pensei: "Today is a good day to die!" e malhei às 6h da manhã para espanto geral da nação. Depois, caminhei sob o solzinho de Natal-RN. Estava realmente acordada, realmente pronta para viver mais um dia. Obrigada, League of Legends!

domingo, 1 de setembro de 2013

Doce setembro



1º de setembro de 2013.  Obrigada setembro por você ter chegado! Vivo o nosso primeiro dia com a leveza dos que acreditam que para tudo existe uma razão mesmo que não compreendida. Então, sinto-me tranquila e apenas celebro o momento. Poderia ser qualquer outro mês, como o tal novembro para combinar com aquele filme, mas não, é você mesmo, mês 9, surpreendente com todas as suas singularidades. Tantos fatos memoráveis e agradáveis acontecem quando você chega que peço ao Deus Chronos que me seja possível um ano assim: mês 1 - setembro; mês 2 – você de novo, até o fim que bem poderia não acabar. Mas me dou conta de que Ele não me ouviria, já que domina as estações, o tempo linear, e eu me refiro a algo maior: o tempo não-linear, eterno, o tempo em que algo supremo e oportuno acontece, simples e perfeito.

Não conseguiria elencar todos os motivos que justifiquem tal sentimento mesmo que tentasse por séculos, já que é só aqui e agora que o “momento” se revela: É em setembro que acontece o Rosh Hashaná (ano novo judaico), é em setembro o aniversário do meu amado pai (numa interessante sexta-feira 13); é em setembro que completo um ano no meu novo emprego (o que eu queria). Sim, também é em setembro que já fiz prova de concurso e é em setembro que de repente me lembro do quanto estive errada. Percebi que nem tudo simplesmente se evapora da nossa mente à medida que avança o tempo cronológico. Percebi que o momento continua sim, percebi que Ele está aqui.

E que bom estarmos aqui - do que jeito que está - depois de tantos meses ilusórios. E que venham todos os meses que tiver de vir, bem como as manhãs que tiver que amanhecer, seja em outubro, novembro ou dezembro, mas que lembrem aquele e este setembro, que é como a primeira e a última colherada da minha sobremesa preferida.

domingo, 25 de agosto de 2013

A bênção de estar só

"Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer"
                                     
                                         


Se existe uma sensação que certamente pouca gente conhece é a maravilha que somente o “estar só” pode trazer.  A maioria, quando está só, entrega-se ao lamento e a busca desesperada por companhia, independentemente da qualidade ou do preço a ser pago. Estar só, para essas pessoas, significa algo assustador. E a explicação é simples: carência e conformismo ad infinitum.

Afirmo isso por experiência própria, já que tempos atrás achei que o “estar só”, nos diversos sentidos que isto implica, fosse algo ruim. Mas essa ideia não durou muito tempo. Ruim mesmo, concluí, é estarmos aparentemente juntos, aparentemente acompanhados mas íntima e profundamente solitários. Não é à toa que o “antes só que mal acompanhado” seja tão célebre. Portanto, em diversas situações, o mais inteligente é manter distância de certas pessoas e grupos, mesmo que momentaneamente você precise ficar “só”.

A despeito do que os extremamente carentes imaginam, estar só em nada se assemelha a solidão.  É, na verdade, o extremo oposto disso: o encontro consigo mesmo, uma pausa para a renovação e, consequentemente, a certeza de novos e proveitosos encontros. Encontros com os filmes, com a música, com os livros, com as viagens, com um novo curso, com festas, com o silêncio, com outras pessoas: encontro com o que você se propor a encontrar, encontro com uma realidade inédita pelo fato de você dispor, enfim, de um tempo só, de um tempo livre para você mesmo. 

É natural que conhecidos um pouco mais folgados te perguntem, quando te reencontram, não apenas sobre sua vida profissional, mas também pessoal. Dependendo da sua idade, esta última pode variar entre “Ainda está com fulano(a)?” “Acabou por quê?”; Está namorando? Já casou? Tem filhos?" ou um olhar desconfiado de “Pqp, qual o seu problema?Por que não está com alguém?”. Sei que você está rindo por ser um dos que perguntam ou um dos que são “agraciados” com essas naturais curiosidades humanas. Eu estou rindo ainda mais porque “me divirto” respondendo e, dependendo do dia e da pessoa, também lanço minha lista de perguntas folgadas e tudo se resolve rapidinho...

Explicar sobre a bênção de estar só para pessoas assim é como tentar fazer aqueles índios americanos enxergarem as naus de Colombo... então desista logo ou tenha paciência. Enquanto isso, os que enxergam além-mar sabem exatamente que navegar é preciso, viver, não; e que cada hora da viagem e cada destino apresentam surpresas e sutilezas, lágrimas e sorrisos que, na verdade, geralmente dependem apenas deles próprios.

Também é verdade que “nenhum homem é uma ilha”, portanto, respeitar os próprios sentimentos e superar fases é algo que nos torna, enfim, mais humildes e equilibrados.   Sempre que começar a se sentir enjoado ou entendiado com o ritmo das ondas, lembre-se que por vezes será melhor ficar apenas como passageiro dos navios, em outras, Ah! não haverá bênção maior do que estar só e aventurar-se por mares nunca dantes navegados. Avante!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O maior bandido da região



E de repente surgiu uma pauta incomum: “Você terá que cobrir um evento em Felipe Camarão!” Gelei enquanto algo muito sério invadia a minha mente: “F****!”. Gosto de emoção, mas não da emoção de correr o risco de me dar de cara com um traficante. Será que ouvi direito? Felipe Camarão é um dos bairros mais infernais de Natal, PONTO. Não vou, PONTO. No entanto, tipo, eu não tinha muita escolha... ok, talvez eu estivesse exagerando no drama, afinal, seria um evento de simulação de guerra entre os alunos de Relações Internacionais, Cruz Vermelha e com forte presença dos militares da Minustah (Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti) com seus tanques de guerra, o que muito me tranquiliza por um momento. Por um momento, eu disse. Havia um “não vá” insistente dentro de mim e a ansiedade tomando conta de cada célula, mas não deixei que meu nervosismo transparecesse. “Interessante!” – disse para a chefe. “Podexá!”

-Taxista, estou indo para tal lugar em tal bairro, o senhor sabe chegar até lá?

-Acho que sim...

- O senhor acha? Olha, pelamordedeus, é Felipe Camarão, né!

- É, eu sei.. diz ele temeroso, - mas não se preocupe, entro em contato com a central que me explica!

Depois de muita conversa com a central, e vários “Copiou”? “Copiei”! depois, chego ao local. Meu coração dispara com o que vejo: um grupo de pessoas ensanguentadas correndo, chorando e gritando “Ajudaa, por favor, eles vão nos matar, eles vão nos matar!” Fico paralisada de medo e logo me sinto uma idiota: a simulação havia começado. Ufa! Ainda bem! Dou nota 10 para os participantes pelo grande susto que levei. Nossa! Enfim, a simulação de guerra segue muito boa, faço meu trabalho (entrevistas e fotos) e decido que já tenho o suficiente. Agora é só chamar o táxi e aguardar. Ligo para o táxi. A simulação termina e rapidamente as pessoas vão se dispersando, inclusive os tanques de guerra. Alguns minutos depois... Estou numa pegadinha ou o quê? Como esse pessoal se dispersou tão rápido enquanto eu chamava o táxi? Foram abduzidos? Porque foi muito rápido mesmo! A maioria já foi embora e eu preciso voltar, pois logo, logo vai escurecer. Aliás, cadê o meu táxi? E mais... lembrei: estou no meio da rua, no meio do nada, no meio de uma população desconhecida no bairro de Felipe Camarão! Bateu um nervosinho! Olho para um lado e para o outro. Ali, eu vejo, ao menos tem uma escola municipal. Um bom lugar para ficar enquanto o bendito táxi não chega. Então vejo uns adolescentes mal encarados caminhando em minha direção (poderia não ser nada, mas poderia ser...). Apresso o passo, chego à tal escola e grito para alguém que está lá dentro - Por favor, por favor! Uma informação! Quando ele chega, mal o vejo e digo a verdade: - Estou com receio de ficar aqui sozinha, não é muito perigoso? Estou apenas esperando o meu táxi chegar! Se puder ficar um pouco me fazendo companhia...

- Perigoso?? Aqui? Ahh, não!! Que isso! Por aqui tá tudo tranquilo! – disse rindo com um certo deboche.

Foi quando olhei bem para ele e percebi algo de muito errado: o cara tinha rosto e braços completamente desfigurados e remendados. Tenho uma impressão muito, muito ruim. Meu coração acelera novamente. Mas agora não tinha nada de simulação. Eu estava diante de um cara desfigurado, relativamente jovem, que me respondeu com ironia sobre a tranquilidade daquela rua em Felipe Camarão. Baixo a cabeça, respiro fundo e respondo constrangida, mas fingindo naturalidade:

- Ah, que bom que é tranquilo...

- Agora é tranquilo, irmã... faz uma pausa e completa - Mas eu já fui o maior bandido desta região!

Dessa vez eu não poderia dizer “que bom”, “que ótimo” me dar de cara com aquele que diz ter sido o maior bandido de F.C em pleno F.C. Então não digo nada. Aliás, eu digo, só em pensamento, exatamente o que pensei lá no início “F****!”.

- Então, irmã.  É o seguinte: eu cansei de descer esta rua tomando bala dos policiais!

- Maravilha! Pensei...

- Aprontei muito aí nesse clube, irmã. (Aponta para o Petyscão). Fiquei nessa por dez anos. Dez anos nessa vida, irmã. Tá vendo essas cicatrizes aqui?  Isso aqui, irmã, fui eu mesmo que joguei álcool e fogo em mim, irmã. Queria morrer, queria me matar, irmã. Acabar com tudo. Aquilo não era vida. Neguinho entra nessa achando que vai se dar bem....(e começa a contar detalhes de como funciona o esquema do tráfico lá e como funciona no Rio, dizendo que não tem comparação porque no Rio o esquema é mil vezes mais organizado e profissional...e que enfim, nesse mundo as pessoas morrem a troco de nada). Então irmã, eu queria muito morrer e taquei fogo em mim, depois só me lembro de acordar no hospital com os irmãos orando por mim. Jesus me salvou!

- Amém! digo extremamente aliviada.

- Hoje estou livre, irmã. Tenho minha família, minha esposa, meu filho. Tento passar para os meninos do bairro o caminho correto. Só Jesus salva, irmã! Estou livre, Glória a Deus!

O táxi enfim chega. “Graças a Deus”, penso, porque intuo que ELE realmente me livrou de uma situação ruim. Afinal, menos mal me esbarrar com o maior “ex-bandido” da região a me contar seu testemunho de mudança... ainda bem! Por mais que as religiões – como tudo na vida – tenha seu lado obscuro (pois falamos de seres humanos complexos e não de santos), é preciso reconhecer o bem que elas fazem quando realmente fazem. Neste caso específico, os evangélicos fizeram e continuam a fazer um bonito trabalho de amenização do caos. Seria leviano divulgar o contrário. Então só posso agradecer aos “irmãos” anônimos que oraram pelo bandido suicida. Se “só Jesus” salva naquele lugar, que assim seja! Muito bom!

Me despeço do “irmão” o elogiando pela força de vontade de retornar ao caminho do bem e o incentivo a continuar pregando “a palavra de Deus” e passar sua lição de vida aos jovens de F.P.

-Agora preciso ir!

-Deus te abençoe, irmã!

-Deus te abençoe!



sábado, 13 de abril de 2013

Só entre nós

                                              

Estava passando por uma loja de CDs há uns 3 anos quando me paralisei encantada ao som do clássico americano “I’ve got you under my skin”. Não, não era “A Voz”, mas que era bom, era. Vou levar! Quando peço o CD ao vendedor, surprise!.. Ih, não posso levar um CD desses, digo a mim mesma. Se alguém descobrir jamais teria credibilidade para mais nada neste mundo! Mas... moço, põe só outra música! E novamente gostei e até cantarolei “Can't take my eyes off you” com um sorrisinho. Putz! E não é que todas são agradáveis de serem ouvidas! Ok! Já que ninguém está vendo vou levar.

Nessas horas a gente sempre acha que tem alguém nos censurando. Então senti um olhar de desprezo deste mesmo vendedor que pensou assim: “mais uma deslumbrada que assiste ao programa dele”. Então eu pensei de volta: “E se fosse? Ao menos seria contratada caso participasse, e você não, seria demitido!”. Óbvio que não se compara aos de verdade, mas poxa, vamos dar um desconto... A verdade é que já escutei mil vezes morta de feliz. As pessoas também gostam mas ficam horrorizadas quando descobrem. (O que comprova uma teoria que outro dia abordarei). De toda forma não é algo que a gente saia publicando, claro, e neste ponto até o próprio título do CD sugere com honestidade: “Roberto Justus – Só entre nós”. Isso mesmo! Justíssimo!


quinta-feira, 11 de abril de 2013

O estranho menino da passarela





Bêbados, ambulantes, o vendedor de cordéis, assaltos, aquele crime passional, estudantes, vaivém diário. O fluxo que dá vida a passarela que liga o Via Direta ao Natal Shopping faz parte da minha rotina desde que cheguei a Natal, em 2004, e de lá para cá um fato me comoveu mais: um estranho menino pedindo esmolas. Aparentando ter uns 8 anos, magrinho e todo sujo, o menino vestia apenas uma camisa esfarrapada GG de adulto, que cobria todo o seu frágil corpo. Sentado ao chão, sobre um pedaço de papelão, quando alguém passava ele implorava com uma voz aguda e estridente “Uma ajudinhaa, por favor, por favor! Uma ajudinhaa!”. Alguns davam moedas, mas a maioria seguia adiante como se nada tivesse visto.  

Assim também fiz, segui adiante, afinal, “preciso terminar o trabalho disso e daquilo” e explorar uma história fora da pauta acadêmica não me servirá de nada, pensava. Mas duas vezes por dia eu atravessava a passarela. E ele sempre, sempre estava por lá. “Por favorr, moçaaa!”. Tome! E dei minhas primeiras moedas, apressadamente, pensando em como aquela criança foi parar ali, sem pai nem mãe, pedindo esmolas o dia inteiro. Outra coisa também me intrigava: a pele do garoto era excessivamente queimada de sol, muito mesmo. Era marrom escura, ressecada e cheia de sardas, o que o deixava com um aspecto incomumente envelhecido. Aversão, medo e compaixão, tudo ao mesmo tempo, era o que sentia ao vê-lo.

1 mês, 2 meses, 1 ano... e o garoto lá. E ninguém fez nada! Nem mesmo eu... Onde estão seus pais? Onde está o governo? Onde estão as pessoas de bom coração? Quem é e de onde vem esse menino que faça sol, faça chuva permanece na passarela de um ponto central e tradicional da cidade? “Uma ajudinhaa, por favor!”. Tome! E dei uma quantia um pouco maior que para mim não era nada, mas para ele.. Ele me olhou incrédulo e sorriu, eu segui adiante para minhas atividades.
1 ano e meio.. o garoto lá. Voltei a dar moedinhas, mas não sempre, claro. Por semanas eu o ignorava, afinal, não sou sua mãe e tenho os meus próprios problemas (da péssima manicure a cabeleireira que fazia uma escovinha mal feita, por exemplo). O vi de novo. Me envergonhei. Tenho mesmo problemas? É... talvez um pouco de futilidade, respondeu o meu lado sensato. Na verdade você tem tudo e mais um pouco, Deus foi generoso, agora trate de fazer um pouco para modificar a situação que tanto te incomoda. Jornalistas não são metidos a salvadores do mundo?  

Decidi. Vou fazer minha parte: a próxima pauta será ele, que me falará sua idade, onde estão seus pais, eu entrarei em contato com alguma ONG, empresários, prefeitura e um lindo futuro se descortinará. Mas, tenho medo. Estou dizendo, ele não é comum, é estranho de verdade, existe um segredo ali, só quem o viu sabe do que estou falando... seria possível desvendá-lo?
Fui. Iniciei uma conversa informal com o garoto dizendo que estava ali para ajudá-lo, precisava apenas de algumas informações. “Menino, qual a sua idade? Onde estão seus pais?” O menino me olhou assustadíssimo e balançou firme e negativamente a cabeça. Não!  Ele não queria falar de forma alguma! Pensei logo em ameaças que ele poderia estar sofrendo e muitas outras hipóteses tão esquisitas quanto ele. Apesar da curiosidade, entendi e desisti. Podia até ser perigoso. Segui minha vida ignorando-o. 2 anos.. ele lá. E então sumiu por um tempo, talvez meses e depois, ele lá de novo. E então eu sumi por muito tempo e depois, eu lá.  Jamais o abordaria novamente e não o abordei. Até que.. até que um dia, quando voltava naquele último grau de cansaço da Universidade e subindo a ladeirinha da passarela, o vejo novamente.  Foi quando aconteceu algo que até hoje me questiono se é mesmo verdade. O garoto se levanta, fixa o olhar em mim e com uma voz diferente e séria me diz: “Ei, é que eu queria dizer uma coisa”, “Oi? Pode dizer, menino!”, “Eu tenho 68 anos!”, “Como?”, “Eu tenho 68 anos de idade!”. Foi a minha vez de ficar assustada. E com tamanho nó na cabeça e tantos outros problemas... o menino-senhor lá, eu cá, finalizando aquele outro trabalho inadiável.